Um coelho traduzido

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O maior desejo do Coelho de Veludo, protagonista da história infantil homônima da escritora anglo-americana Margery Williams (1881-1944), é ser um coelho “De Verdade”. A busca existencial desse brinquedo que uma criança recebe como presente na noite de Natal é um tema recorrente no mundo da ficção literária, bastando lembrar, detendo-se em apenas dois exemplos, da busca por humanidade empreendida pela criatura de Frankenstein ou pelo boneco de madeira Pinocchio. Seres imaginários que metaforizam a jornada do indivíduo rumo ao autoconhecimento e à transformação, onde a angústia e o sofrimento são parte do processo. Isso faz de O Coelho de Veludo uma leitura sempre atual e é uma das justificativas de sua condição de clássico lido e amado por gerações de crianças desde que foi publicado pela primeira vez nos Estados unidos em 1922.

É uma pena que o coelhinho de Williams atrasou-se tal qual o coelho branco que Alice persegue, chegando só recentemente às livrarias do Brasil, porém em grande estilo. Repita-se: livrarias, porque apesar de ser anunciada como versão inédita em Língua Portuguesa, a iniciativa da editora paulista Poetisa foi precedida por pelo menos duas outras versões que circulam há algum tempo na Internet. Mas nada nem de longe comparável ao livro que conta com projeto gráfico apurado e delicadas aquarelas de Marcela Fehrenbach e tradução cuidadosa de Davi Gonçalves.

A edição carece apenas de informações biográficas sobre a autora da história, visto que se trata de uma escritora desconhecida pelo público daqui. Todavia, a ausência desse paratexto é minimizada pela inclusão de outro muito mais interessante para o leitor: uma nota do tradutor. Algo bastante incomum em literatura infantil, porém diferencial que aponta para o perfil que a Poetisa quer estabelecer para si como editora preocupada com a qualidade de suas traduções e visibilidade de seus tradutores. Não por acaso, boa parte de sua equipe é formada por pesquisadores da Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PGET-UFSC), como o próprio tradutor do livro, que cursa doutorado no programa, desenvolvendo estudo sobre o escritor anglo-canadense Stephen Leacock.

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Qualificar a tradução de Gonçalves como cuidadosa é considerá-la, neste caso, atenta à proposta de transposição que estabeleceu e bem diverso de afirmar que ele pretendeu obter do texto de partida o máximo possível de literalidade. É que as intenções do tradutor foram guiadas por parâmetros que julgou mais importantes do que o empenho na estreita observância das palavras de Williams, o que parcialmente é deixado claro na nota que assina. Sem dúvida, os princípios norteadores de maior relevância no trabalho são a substituição de elementos que causem estranhamento ou sejam incomuns ao leitor brasileiro, a mudança do contexto socioeconômico do enredo e a neutralização da identidade de gênero do dono do Coelho.

A neutralização de gênero ocorre mediante a troca do nome do personagem, que definido como “Menino” (Boy) no original passa a ser “Criança” na tradução. Gonçalves justifica a mudança como “tentativa de tornar essa sua característica universal [a infantil] ainda mais forte e permitir que crianças de ambos os gêneros se identifiquem com a personagem” (p. 6). Uma decisão de caráter ideológico como a que torna menos privilegiada economicamente a família da Criança. Na versão em inglês há uma casa com um quarto de crianças cheio de brinquedos e uma babá, enquanto que em português os brinquedos ficam na sala e é uma avó quem cuida da Criança.

Por sua vez, a substituição de vários elementos articula familiaridade ou mais proximidade no leitor, inclusive temporalmente. Assim, na tradução o Coelho é um dos presentes dispostos embaixo de uma árvore natalina e não dentro de uma meia, como é costume nos Estados Unidos e foi a opção de Williams. Além disso, dos outros presentes listados originalmente, que compreendem nozes (nuts), laranjas (oranges), uma locomotiva de brinquedo (toy engine), amêndoas de chocolate (chocolate almonds) e um rato de corda (clockwork mouse), só o último permaneceu, agora acompanhado de chocolates, doces, balas e um autorama. Observe-se ainda que há brinquedos a pilha na tradução, o sábio Cavalo de Couro (Skin Horse) é Cavalo de Pau e um cão de porcelana (china dog) vira cãozinho de pelúcia.

Esses procedimentos de que o tradutor lançou mão enquadram-se na chamada tradução domesticadora, modalidade oposta à conhecida como estrangeirizadora, denominações que hoje se dão aos dois métodos de tradução delimitados no início do século XIX pelo teórico alemão Friedrich Schleiermacher. Para Schleiermacher, deve-se ou deixar o leitor confortável e trazer o escritor até ele, facilitando o seu trabalho e tornando familiar o que causaria estranhamento, ou deixar o escritor em seu lugar e levar o leitor para fora de sua zona conforto, mantendo o que é estranho ou peculiar para que haja uma maior aproximação do público-alvo com a língua e a cultura de que se traduz. Entretanto, justamente quanto à natureza de brinquedo do Coelho, o seu tradutor decidiu-se pela estrangeirização, mesmo que comedida. Em inglês, tem-se um Velveteen Rabbit, literalmente “Coelho de Belbutina”. A belbutina é uma espécie de tecido fino e aveludado feito de algodão, e por si só é o mínimo necessário para fazer qualquer criança ou adulto desistir de ler ou ouvir em português uma história que contenha esse vocábulo já no título. Nas traduções anteriores à de Gonçalves, a escolha foi por apresentar um “Coelho de Pelúcia”, o que não causa maiores sobressaltos no leitor. Mas a preferência pelo meio-termo “veludo” evoca certa estranheza, e não apenas isso, pois parece que há aí quê de ambiguidade e o Coelho encontra-se no limite entre a condição de brinquedo e animal, singularidade que não é sugerida pelo título americano e os das outras traduções, nos quais se sabe de modo inequívoco que o Coelho é um brinquedo.

Em literatura, ambiguidade pode significar virtude. Talvez os pequenos leitores do Coelho de Veludo estejam mais predispostos a fruir da feliz ambiguidade proporcionada pelo seu recriador do que os adultos. Aliás, se Gonçalves demonstra claramente que foram esses leitores os principais responsáveis pela bússola de seu projeto tradutório, espera-se que eles também o sejam por tornar  a história de Williams sempre revisitada entre nós.

***

WILLIAMS, Margery. O Coelho de Veludo: quando uma coisa De Mentira vira algo De Verdade. Tradução de Davi Gonçalves e ilustrações de Marcela Fehrenbach. São Paulo: Poetisa, 2015.

*Resenha publicada originalmente na revista Belas Infiéis, v. 5, n. 1 (2016).


Imagens: Marcela Fehrenbach (Divulgação).
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Giacomo Leopardi – O infinito

O mais recente número da revista Appunti Leopardiani (Edizioni 11 – 2016/1), periódico dedicado ao estudo e difusão da obra do poeta italiano Giacomo Leopardi, editado pelo DLLE-UFSC, publicou a minha tradução do poema “L’infinito”, uma das composições mais famosas do autor e também da lírica ocidental. Convido a todos para a ler a tradução, prestigiar Leopardi e conhecer a revista. Para acessar o texto, clique na imagem.

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Torquato Tasso – Madrigal (499,36)

O ideal seria que todos os tradutores dispusessem de condições flaubertianas de tempo, energia e paciência para trabalhar. Infelizmente, quanto ao tempo, resta ao tradutor profissional cumprir, na medida do possível (e impossível), os prazos a que está sujeito. O deadline é o flagelo da poesia. Uma situação comum é a de se colocar no final da fila das prioridades os versos que dão o ar de sua graça em meio à prosa. E se não se vive da escrita de poesia, muito menos se pode viver apenas da tradução de poesia. Do ponto de vista financeiro, o tradutor de poesia, quando tradutor de poesia, e excluídos projetos de âmbito acadêmico, paga para exercer o seu ofício, já que pode optar por empreitadas mais rentáveis e menos complicadas em vez de recriar versos. Mesmo assim, é graças a pessoas que transcenderam essas circunstâncias desanimadoras que podemos ler em língua portuguesa Homero, Dante, Baudelaire e Rilke, bem como se deve à falta de mais tradutores abnegados o fato de não termos até agora, citando-se apenas um exemplo, uma tradução poética integral das Metamorfoses de Ovídio.
A tradução do madrigalzinho de Torquato Tasso (1544-1595) que justifica esta postagem demorou, entre espaçadas idas e vindas, nada menos do que quase uma década. O meu desagrado com uma versão portuguesa de António Herculano de Carvalho (1899-1986), que, afora demonstrar pouca sensibilidade rítmica, eliminou uma rima emparelhada, levou-me a tentar traduzi-lo privilegiando a recriação daquilo que a meu ver é o mais relevante oferecido pela sua informação estética: a musicalidade.

Torquato Tasso

Madrigal

(499, 36)

Ser a abelha eu queria,
dama bela e cruel,
que sussurrando em vós sugasse o mel;
e, oculto o coração, achasse meio
de vos picar o seio,
e na doce ferida,
vingada abandonar a própria vida.

Trad. Marcelo Bueno

Madrigale

(499, 36)

Un’ape esser vorrei,
donna bella e crudele,
che susurrando in voi suggesse il mele;
e, non potendo il cor, potesse almeno
pungervi il bianco seno,
e ‘n sì dolce ferita
vendicata lasciar la propria vita.

TASSO, Torquato. Rime. Disponível em: < http://www.letteraturaitaliana.net/pdf/Volume_5/t128.pdf>. p. 532. Acesso em: 24/05/2015.

A tradução de António Herculano de Carvalho:

Epigrama

Quisera abelha ser,
mulher linda e cruel,
que, zumbindo, de vós sugasse o mel
e, não podendo ser no coração,
vos picasse o seio;
e em tão doce ferida,
vingada, abandonar a própria vida.

CARVALHO, António Herculano de (Org. e trad.). Musa de quatro idiomas. Lisboa: Ática, 1947. p. 242.

*Agradeço aos alunos do curso de extensão “Tradução: teoria e prática”, que ministro atualmente na UEMS, pela discussão de algumas soluções de minha tradução.


Imagem: Torquato Tasso, R. Hart, gravura em metal, in: MALKIN, Arthur Thomas; THE SOCIETY for the Diffusion of Useful Knowledge (Ed.). The gallery of portraits: with memoirs. London: Charles knight, 1833.
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Francisco de Quevedo – Em Roma buscas Roma, ó peregrino!

Este soneto de Quevedo, o primeiro dele que traduzi, é a filiação do poeta à nostalgia e melancolia evocadas pelas ruínas romanas, tema que se destaca na poesia ocidental a partir de um epigrama latino composto no século XVI pelo renascentista italiano Janus Vitalis e do qual os versos de Quevedo são a reelaboração. Tal poema também contou com a releitura de vários outros nomes, como Joachin Du Bellay, Edmund Spenser e Goethe. Em Poesia alheia (Imago, 1998), Nelson Ascher apresenta-nos a sua tradução de Vitalis e de mais quatro versões, incluindo a de Quevedo. O interessante é que fui introduzido a essa tradição ruinística através de seu poema mais recente: o belo “Ruínas romanas”, de Claudio Willer, publicado no volume Estranhas experiências (Lamparina, 2004), mas que cruzou o meu caminho no documentário Uma outra cidade (2000), de Ugo Giorgetti.

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Em Roma buscas Roma, ó peregrino!

Em Roma buscas Roma, ó peregrino!
e em Roma, desejando Roma, falhas:
cadáver são as que ostentou muralhas,
e tumba de si próprio o Aventino.

Jaz, onde governava, o Palatino;
e de tempo limadas, as medalhas
mais se mostram destroços às batalhas
contra as idades que brasão latino.

Só o Tibre restou, cuja corrente,
se a cidade regou, já sepultura,
pranteia-a com funesto som dolente.

Ó Roma! em teu poder e formosura
fugiu o que era firme, e unicamente
o fugitivo permanece e dura.

Trad. Marcelo Bueno

Buscas en Roma a Roma, ¡oh peregrino!

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!,
y en Roma misma a Roma no la hallas:
cadáver son las que ostentó murallas,
y tumba de sí propio el Aventino.

Yace, donde reinaba el Palatino;
y limadas del tiempo, las medallas
más se muestran destrozo a las batallas
de las edades que blasón latino.

Sólo el Tíbre quedó, cuya corriente,
si ciudad la regó, ya, sepoltura,
la llora con funesto son doliente.

¡Oh, Roma!, en tu grandeza, en tu hermosura,
huyó lo que era firme, y solamente
lo fugitivo permanece y dura.

QUEVEDO, Francisco de. Poesía original completa. Ed. José Manuel Blecua. Barcelona: Planeta, 2004. pp. 244-245.

Notas

– vv. 4-5 – Aventino e Palatino: duas das sete colinas de Roma.

– v. 9 – Tibre: rio que atravessa Roma, sendo o terceiro mais longo da Itália, com nascente na Emília-Romanha e foz no Mediterrâneo.


Imagem: Esboço da Gruta de Egéria em Roma, Johann Wolfgang von Goethe, 1786.

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Cecco Angiolieri – Soneto LXXXVI

Tomei conhecimento da figura do poeta italiano Cecco Angiolieri (c. 1260-1312) como personagem de um conto das Vidas imaginárias, de Marcel Schwob. Creio que a tradução que agora publico, que é a de seu poema mais famoso, é a primeira que aparece no Brasil. Na verdade, desconheço qualquer outra tradução dos escritos de Angiolieri por aqui. Como vocês verão, esta pequena amostra dá uma ideia da agressividade e jocosidade de sua poesia, verve que contribuiu para que o pintassem exageradamente rebelde, boêmio e maldito.

Cecco-Angiolieri

Soneto LXXXVI

Se eu fosse fogo, arderia o mundo;
se fosse vento, eu o arrasaria;
se fosse água, eu o afogaria;
se fosse Deus, o mandava ao profundo;

se fosse papa, rindo-me jucundo,
a todos os cristãos enganaria;
se fosse imperador, o que faria?
Às cabeças daria fim rotundo.

Se fosse morte, o meu pai encontrava;
se fosse vida, dele estava ausente:
do mesmo modo a minha mãe tratava.

Se fosse Cecco, como era e sou sempre,
só as mulheres bonitas tomava:
as feias deixaria a outra gente.

Trad. Marcelo Bueno

Sonetto LXXXVI

S’i’ fosse foco, arderéi ’l mondo;
s’ i’ fosse vento, lo tempesterei;
s’i’ fosse acqua, i’ l’annegherei;
s’i’ fosse Dio, mandereil’en profondo;

s’i’ fosse papa, sare’ allor giocondo,
ché tutti cristïani imbrigherei;
s’i’ fosse ’mperator, sa’ che farei?
A tutti mozzarei lo capo a tondo.

S’i fosse morte, andarei da mio padre;
s’i’ fosse vita, fuggirei da lui:
similemente farìa da mi’ madre.

S’i’ fosse Cecco, com’i’ sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre:
e vecchie e laide lasserei altrui.

ANGIOLIERI, Cecco. Rime. In: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/lb000062.pdf>. pp. 57-58. Acesso em: 20/05/2015.

Versão musicada do poema por Fabrizio de Andrè.

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Francisco de Quevedo – Fechar meus olhos pode a derradeira

Resgato da gaveta a minha tradução do soneto de Francisco de Quevedo (1580-1645) conhecido popularmente como Amor constante para além da morte, considerado o mais célebre da língua espanhola. Esta versão faz parte de um conjunto de sete sonetos do poeta espanhol que traduzi inicialmente nas madrugadas da Ilha de Santa Catarina ao som de Kind of blue e Sketches of Spain, de Miles Davis, e que não imagino nem onde ou quando vai ser publicado.

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Fechar meus olhos pode a derradeira

Fechar meus olhos pode a derradeira
sombra que me levar o branco dia,
e desatar esta alma poderia
hora ao seu grande anseio lisonjeira;

mas não, dessoutra parte, na ribeira,
deixará as lembranças, onde ardia:
minha chama nadar sabe a água fria,
e rigorosa lei romper inteira.

Alma que em todo um deus há padecido,
veias que humor a incêndio hão dotado,
medulas que hão gloriosamente ardido,

seu corpo deixará, não seu cuidado;
serão cinza, porém terá sentido;
pó serão, porém pó apaixonado.

Trad. Marcelo Bueno

Cerrar podrá mis ojos la postrera

Cerrar podrá mis ojos la postrera
sombra que me llevare el blanco día,
y podrá desatar esta alma mia
hora a su afán ansioso lisonjera;

mas no, de esotra parte, en la ribera,
dejará la memoria, en donde ardía:
nadar sabe mi llama la agua fría,
y perder el respeto a ley severa.

Alma a quien todo un dios prisión ha sido,
venas que humor a tanto fuego han dado,
médulas que han gloriosamente ardido,

su cuerpo dejará, no su cuidado;
serán ceniza, mas tendrá sentido;
polvo serán, mas polvo enamorado.

QUEVEDO, Francisco de. Poesía original completa. Ed. José Manuel Blecua. Barcelona: Planeta, 2004. pp. 480-481.

Notas

– v. 4 – Grande anseio: desejo de morrer.

– vv. 5-8 – Ribeira e memória: segundo uma crença pagã, a alma era sujeita à lei de abandonar as lembranças terrenas na margem do Letes, um dos rios do Hades.

– vv. 9-14 – Ordem direta de leitura: Alma que em todo um deus há padecido,/ seu corpo deixará, não seu cuidado;/ veias que humor a incêndio hão dotado,/ serão cinza, porém terá sentido;/ medulas que hão gloriosamente ardido,/ pó hão de ser, mas pó apaixonado.


Imagem: cópia de retrato perdido de Quevedo atribuído a Diego Velázquez, óleo sobre tela, séc. XVII, Instituto Valencia de Don Juan.
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Niccolò Machiavelli – Estrambotos

Figura envolta em permanente controvérsia quanto a algumas de suas ideias, Niccolò Machiavelli (1469-1527), considerado o pai da ciência política moderna, para além de sua obra mais célebre, Il principe (O príncipe, 1513), e de outros escritos políticos e históricos, tem uma produção literária menos conhecida e traduzida, sobretudo a sua poesia, cujas incursões se deram em gêneros como o narrativo e o lírico. A seguir, apresento uma amostra da exígua lírica maquiaveliana, a qual, acredito, só foi publicada no Brasil na forma de citações em trabalhos sobre o autor, vertidas sem maior compromisso do que a preocupação semântica.

Estrambotos

I

Espero, e do esperar cresce o tormento:
choro, e este chorar nutre o coração:
rio, e este rir não passa para dentro:
ardo, e este arder se furta da visão:
temo a isto que sinto e ao que atento;
tudo me causa nova danação;
assim na espera, choro, rio e ardo,
e aflige-me o que ouço, vejo e aguardo.

II

Com o que ofende esconde toda fera:
entre a erva, o dragão habita o prado:
leva a abelha na boca mel e cera
e na pequena há um ferrão guardado:
oculta a face horrível a pantera
e o dorso mostra prazeroso e vago;
tu mostras o teu rosto ao bem afeito,
pois tens um coração cruel no peito.

Trad. Marcelo Bueno

Strambotti

I

Io spero, e lo sperar cresce ’l tormento:
io piango, e il pianger ciba il lasso core:
io rido, e el rider mio non passa drento:
io ardo, e l’arsion non par di fore:
io temo ciò che io veggo e ciò che io sento;
ogni cosa mi dà nuovo dolore;
così sperando, piango, rido e ardo,
e paura ho di ciò che io odo e guardo.

II

Nasconde quel con che nuoce ogni fera:
celasi, adunque, sotto l’erbe il drago:
porta la pecchia in bocca mèle e cera
e dentro al piccol sen nasconde l’ago:
cuopre l’orrido volto la pantera
e ’l dosso mostra dilettoso e vago;
tu mostri il volto tuo di pietà pieno,
poi celi un cor crudel dentro al tuo seno.

MACHIAVELLI, Niccolò. Poesie varie. In: <http://www.classicitaliani.it/index212.htm>. Acesso em: 05/2015.

Nota

Estramboto: antigo gênero poético italiano, constituído por uma única estrofe de seis ou oito decassílabos (versos com dez sílabas poéticas) e com temática predominantemente amorosa.

*Atualização – 26/12/2016: tradução republicada em Zunái – Revista de Poesia e Debates, v. 3, n. 2 (dez 2016).


Imagem: Retrato póstumo de Machiavelli, Santi di Tito, óleo sobre tela, segunda metade do séc. XVI, Palazzo Vecchio, Florença.
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