Cia. de Leitores – O velho e o mar, de Ernest Hemingway

O velho e o mar

Só se pesca uma boa história quando se é fisgado por ela. Em seu encontro de julho, a Cia. de Leitores discutirá o romance ‘O velho e o mar’ (1952), de Ernest Hemingway, último romance do escritor estadunidense e também o mais famoso, considerado o arremate de seu estilo vigoroso e conciso, o qual exerceu influência marcante na literatura do século XX.
Quem somos: a Cia. de Leitores é um projeto que busca incentivar a leitura e a discussão de clássicos da literatura na cidade de Bandeirantes-MS. Os encontros são mensais e leitores de outras localidades são bem-vindos, podendo contar com carona.
Participe de nosso grupo no Facebook: https://www.facebook.com/groups/121848358370564/

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Cine Casa – Um conto chinês

Um conto chinês

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Antoine Tudal – Obstáculos

Muro

Obstáculos

Entre o homem e a mulher
Há o amor.
Entre o homem e o amor
Há um mundo.
Entre o homem e o mundo
Há um muro.

Os fortes derrubam o muro,
Os hábeis o escalam,
Os pacientes o arranham
Para outros, um muro é um muro
Ladeiam-no sem pensar mal…
Nem bem…

O bem e o mal
Existem entretanto para eles
É um muro como o outro
Que lhes dá sua sombra.

Para os amurados tudo é muro
Mesmo uma porta aberta.

Trad. Marcelo Bueno

Obstacles

Entre l’homme et la femme
Il y a l’amour.
Entre l’homme et l’amour
Il y a un monde.
Entre l’homme et le monde
Il y a un mur.

Les forts enfoncent le mur,
Les adroits l’escaladent,
Les patients le grattent.
Pour d’autres, un mur est un mur
Ils le longent sans penser à mal…
ni à bien…

Le bien et le mal
Existent cependant pour eux,
C’est un mur comme l’autre
Qui leur donne son ombre.

Aux emmurés, tout est mur
Même une porte ouverte.

Do almanaque Paris en l’an 2000 (1945)

Antoine Tudal (1931-2010): pseudônimo de Antek Teslar, cenógrafo e escritor francês. Ainda na adolescência publicou sua única coletânea individual de poemas, SouSpente (1945), ilustrada por Georges Braque. A composição de “Obstáculos” data desse período, e foi graças ao psicanalista Jacques Lacan que os versos de sua primeira estrofe alcançaram relativa notoriedade, visto que os citou algumas vezes em seu ensino.

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Festival Varilux de Cinema Francês 2017 – Roda de Conversa

Neste sábado (17/06) participarei de uma roda de conversa que integra a programação da segunda edição do Festival Varilux de Cinema Francês aqui em Campo Grande. O evento acontecerá na Leparole Livraria e a entrada é franca.

Festival Varilux

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Albert Camus: ciclo do absurdo

“O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.”
(Albert Camus)

Divulgação do meu curso sobre Camus:

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Um coelho traduzido

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O maior desejo do Coelho de Veludo, protagonista da história infantil homônima da escritora anglo-americana Margery Williams (1881-1944), é ser um coelho “De Verdade”. A busca existencial desse brinquedo que uma criança recebe como presente na noite de Natal é um tema recorrente no mundo da ficção literária, bastando lembrar, detendo-se em apenas dois exemplos, da busca por humanidade empreendida pela criatura de Frankenstein ou pelo boneco de madeira Pinocchio. Seres imaginários que metaforizam a jornada do indivíduo rumo ao autoconhecimento e à transformação, onde a angústia e o sofrimento são parte do processo. Isso faz de O Coelho de Veludo uma leitura sempre atual e é uma das justificativas de sua condição de clássico lido e amado por gerações de crianças desde que foi publicado pela primeira vez nos Estados unidos em 1922.

É uma pena que o coelhinho de Williams atrasou-se tal qual o coelho branco que Alice persegue, chegando só recentemente às livrarias do Brasil, porém em grande estilo. Repita-se: livrarias, porque apesar de ser anunciada como versão inédita em Língua Portuguesa, a iniciativa da editora paulista Poetisa foi precedida por pelo menos duas outras versões que circulam há algum tempo na Internet. Mas nada nem de longe comparável ao livro que conta com projeto gráfico apurado e delicadas aquarelas de Marcela Fehrenbach e tradução cuidadosa de Davi Gonçalves.

A edição carece apenas de informações biográficas sobre a autora da história, visto que se trata de uma escritora desconhecida pelo público daqui. Todavia, a ausência desse paratexto é minimizada pela inclusão de outro muito mais interessante para o leitor: uma nota do tradutor. Algo bastante incomum em literatura infantil, porém diferencial que aponta para o perfil que a Poetisa quer estabelecer para si como editora preocupada com a qualidade de suas traduções e visibilidade de seus tradutores. Não por acaso, boa parte de sua equipe é formada por pesquisadores da Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PGET-UFSC), como o próprio tradutor do livro, que cursa doutorado no programa, desenvolvendo estudo sobre o escritor anglo-canadense Stephen Leacock.

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Qualificar a tradução de Gonçalves como cuidadosa é considerá-la, neste caso, atenta à proposta de transposição que estabeleceu e bem diverso de afirmar que ele pretendeu obter do texto de partida o máximo possível de literalidade. É que as intenções do tradutor foram guiadas por parâmetros que julgou mais importantes do que o empenho na estreita observância das palavras de Williams, o que parcialmente é deixado claro na nota que assina. Sem dúvida, os princípios norteadores de maior relevância no trabalho são a substituição de elementos que causem estranhamento ou sejam incomuns ao leitor brasileiro, a mudança do contexto socioeconômico do enredo e a neutralização da identidade de gênero do dono do Coelho.

A neutralização de gênero ocorre mediante a troca do nome do personagem, que definido como “Menino” (Boy) no original passa a ser “Criança” na tradução. Gonçalves justifica a mudança como “tentativa de tornar essa sua característica universal [a infantil] ainda mais forte e permitir que crianças de ambos os gêneros se identifiquem com a personagem” (p. 6). Uma decisão de caráter ideológico como a que torna menos privilegiada economicamente a família da Criança. Na versão em inglês há uma casa com um quarto de crianças cheio de brinquedos e uma babá, enquanto que em português os brinquedos ficam na sala e é uma avó quem cuida da Criança.

Por sua vez, a substituição de vários elementos articula familiaridade ou mais proximidade no leitor, inclusive temporalmente. Assim, na tradução o Coelho é um dos presentes dispostos embaixo de uma árvore natalina e não dentro de uma meia, como é costume nos Estados Unidos e foi a opção de Williams. Além disso, dos outros presentes listados originalmente, que compreendem nozes (nuts), laranjas (oranges), uma locomotiva de brinquedo (toy engine), amêndoas de chocolate (chocolate almonds) e um rato de corda (clockwork mouse), só o último permaneceu, agora acompanhado de chocolates, doces, balas e um autorama. Observe-se ainda que há brinquedos a pilha na tradução, o sábio Cavalo de Couro (Skin Horse) é Cavalo de Pau e um cão de porcelana (china dog) vira cãozinho de pelúcia.

Esses procedimentos de que o tradutor lançou mão enquadram-se na chamada tradução domesticadora, modalidade oposta à conhecida como estrangeirizadora, denominações que hoje se dão aos dois métodos de tradução delimitados no início do século XIX pelo teórico alemão Friedrich Schleiermacher. Para Schleiermacher, deve-se ou deixar o leitor confortável e trazer o escritor até ele, facilitando o seu trabalho e tornando familiar o que causaria estranhamento, ou deixar o escritor em seu lugar e levar o leitor para fora de sua zona conforto, mantendo o que é estranho ou peculiar para que haja uma maior aproximação do público-alvo com a língua e a cultura de que se traduz. Entretanto, justamente quanto à natureza de brinquedo do Coelho, o seu tradutor decidiu-se pela estrangeirização, mesmo que comedida. Em inglês, tem-se um Velveteen Rabbit, literalmente “Coelho de Belbutina”. A belbutina é uma espécie de tecido fino e aveludado feito de algodão, e por si só é o mínimo necessário para fazer qualquer criança ou adulto desistir de ler ou ouvir em português uma história que contenha esse vocábulo já no título. Nas traduções anteriores à de Gonçalves, a escolha foi por apresentar um “Coelho de Pelúcia”, o que não causa maiores sobressaltos no leitor. Mas a preferência pelo meio-termo “veludo” evoca certa estranheza, e não apenas isso, pois parece que há aí quê de ambiguidade e o Coelho encontra-se no limite entre a condição de brinquedo e animal, singularidade que não é sugerida pelo título americano e os das outras traduções, nos quais se sabe de modo inequívoco que o Coelho é um brinquedo.

Em literatura, ambiguidade pode significar virtude. Talvez os pequenos leitores do Coelho de Veludo estejam mais predispostos a fruir da feliz ambiguidade proporcionada pelo seu recriador do que os adultos. Aliás, se Gonçalves demonstra claramente que foram esses leitores os principais responsáveis pela bússola de seu projeto tradutório, espera-se que eles também o sejam por tornar  a história de Williams sempre revisitada entre nós.

***

WILLIAMS, Margery. O Coelho de Veludo: quando uma coisa De Mentira vira algo De Verdade. Tradução de Davi Gonçalves e ilustrações de Marcela Fehrenbach. São Paulo: Poetisa, 2015.

*Resenha publicada originalmente na revista Belas Infiéis, v. 5, n. 1 (2016).


Imagens: Marcela Fehrenbach (Divulgação).
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Giacomo Leopardi – O infinito

O mais recente número da revista Appunti Leopardiani (Edizioni 11 – 2016/1), periódico dedicado ao estudo e difusão da obra do poeta italiano Giacomo Leopardi, editado pelo DLLE-UFSC, publicou a minha tradução do poema “L’infinito”, uma das composições mais famosas do autor e também da lírica ocidental. Para acessar o texto clique na imagem.

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