Albert Camus: ciclo do absurdo

“O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites.”
(Albert Camus)

Divulgação do meu curso sobre Camus:

curso-camus-ciclo-do-absurdo-flyer

Anúncios
Publicado em Eventos | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Um coelho traduzido

o-coelho-de-veludo-ilustrac%cc%a7a%cc%83o-1

O maior desejo do Coelho de Veludo, protagonista da história infantil homônima da escritora anglo-americana Margery Williams (1881-1944), é ser um coelho “De Verdade”. A busca existencial desse brinquedo que uma criança recebe como presente na noite de Natal é um tema recorrente no mundo da ficção literária, bastando lembrar, detendo-se em apenas dois exemplos, da busca por humanidade empreendida pela criatura de Frankenstein ou pelo boneco de madeira Pinocchio. Seres imaginários que metaforizam a jornada do indivíduo rumo ao autoconhecimento e à transformação, onde a angústia e o sofrimento são parte do processo. Isso faz de O Coelho de Veludo uma leitura sempre atual e é uma das justificativas de sua condição de clássico lido e amado por gerações de crianças desde que foi publicado pela primeira vez nos Estados unidos em 1922.

É uma pena que o coelhinho de Williams atrasou-se tal qual o coelho branco que Alice persegue, chegando só recentemente às livrarias do Brasil, porém em grande estilo. Repita-se: livrarias, porque apesar de ser anunciada como versão inédita em Língua Portuguesa, a iniciativa da editora paulista Poetisa foi precedida por pelo menos duas outras versões que circulam há algum tempo na Internet. Mas nada nem de longe comparável ao livro que conta com projeto gráfico apurado e delicadas aquarelas de Marcela Fehrenbach e tradução cuidadosa de Davi Gonçalves.

A edição carece apenas de informações biográficas sobre a autora da história, visto que se trata de uma escritora desconhecida pelo público daqui. Todavia, a ausência desse paratexto é minimizada pela inclusão de outro muito mais interessante para o leitor: uma nota do tradutor. Algo bastante incomum em literatura infantil, porém diferencial que aponta para o perfil que a Poetisa quer estabelecer para si como editora preocupada com a qualidade de suas traduções e visibilidade de seus tradutores. Não por acaso, boa parte de sua equipe é formada por pesquisadores da Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PGET-UFSC), como o próprio tradutor do livro, que cursa doutorado no programa, desenvolvendo estudo sobre o escritor anglo-canadense Stephen Leacock.

o-coelho-de-veludo-ilustrac%cc%a7a%cc%83o-2

Qualificar a tradução de Gonçalves como cuidadosa é considerá-la, neste caso, atenta à proposta de transposição que estabeleceu e bem diverso de afirmar que ele pretendeu obter do texto de partida o máximo possível de literalidade. É que as intenções do tradutor foram guiadas por parâmetros que julgou mais importantes do que o empenho na estreita observância das palavras de Williams, o que parcialmente é deixado claro na nota que assina. Sem dúvida, os princípios norteadores de maior relevância no trabalho são a substituição de elementos que causem estranhamento ou sejam incomuns ao leitor brasileiro, a mudança do contexto socioeconômico do enredo e a neutralização da identidade de gênero do dono do Coelho.

A neutralização de gênero ocorre mediante a troca do nome do personagem, que definido como “Menino” (Boy) no original passa a ser “Criança” na tradução. Gonçalves justifica a mudança como “tentativa de tornar essa sua característica universal [a infantil] ainda mais forte e permitir que crianças de ambos os gêneros se identifiquem com a personagem” (p. 6). Uma decisão de caráter ideológico como a que torna menos privilegiada economicamente a família da Criança. Na versão em inglês há uma casa com um quarto de crianças cheio de brinquedos e uma babá, enquanto que em português os brinquedos ficam na sala e é uma avó quem cuida da Criança.

Por sua vez, a substituição de vários elementos articula familiaridade ou mais proximidade no leitor, inclusive temporalmente. Assim, na tradução o Coelho é um dos presentes dispostos embaixo de uma árvore natalina e não dentro de uma meia, como é costume nos Estados Unidos e foi a opção de Williams. Além disso, dos outros presentes listados originalmente, que compreendem nozes (nuts), laranjas (oranges), uma locomotiva de brinquedo (toy engine), amêndoas de chocolate (chocolate almonds) e um rato de corda (clockwork mouse), só o último permaneceu, agora acompanhado de chocolates, doces, balas e um autorama. Observe-se ainda que há brinquedos a pilha na tradução, o sábio Cavalo de Couro (Skin Horse) é Cavalo de Pau e um cão de porcelana (china dog) vira cãozinho de pelúcia.

Esses procedimentos de que o tradutor lançou mão enquadram-se na chamada tradução domesticadora, modalidade oposta à conhecida como estrangeirizadora, denominações que hoje se dão aos dois métodos de tradução delimitados no início do século XIX pelo teórico alemão Friedrich Schleiermacher. Para Schleiermacher, deve-se ou deixar o leitor confortável e trazer o escritor até ele, facilitando o seu trabalho e tornando familiar o que causaria estranhamento, ou deixar o escritor em seu lugar e levar o leitor para fora de sua zona conforto, mantendo o que é estranho ou peculiar para que haja uma maior aproximação do público-alvo com a língua e a cultura de que se traduz. Entretanto, justamente quanto à natureza de brinquedo do Coelho, o seu tradutor decidiu-se pela estrangeirização, mesmo que comedida. Em inglês, tem-se um Velveteen Rabbit, literalmente “Coelho de Belbutina”. A belbutina é uma espécie de tecido fino e aveludado feito de algodão, e por si só é o mínimo necessário para fazer qualquer criança ou adulto desistir de ler ou ouvir em português uma história que contenha esse vocábulo já no título. Nas traduções anteriores à de Gonçalves, a escolha foi por apresentar um “Coelho de Pelúcia”, o que não causa maiores sobressaltos no leitor. Mas a preferência pelo meio-termo “veludo” evoca certa estranheza, e não apenas isso, pois parece que há aí quê de ambiguidade e o Coelho encontra-se no limite entre a condição de brinquedo e animal, singularidade que não é sugerida pelo título americano e os das outras traduções, nos quais se sabe de modo inequívoco que o Coelho é um brinquedo.

Em literatura, ambiguidade pode significar virtude. Talvez os pequenos leitores do Coelho de Veludo estejam mais predispostos a fruir da feliz ambiguidade proporcionada pelo seu recriador do que os adultos. Aliás, se Gonçalves demonstra claramente que foram esses leitores os principais responsáveis pela bússola de seu projeto tradutório, espera-se que eles também o sejam por tornar  a história de Williams sempre revisitada entre nós.

***

WILLIAMS, Margery. O Coelho de Veludo: quando uma coisa De Mentira vira algo De Verdade. Tradução de Davi Gonçalves e ilustrações de Marcela Fehrenbach. São Paulo: Poetisa, 2015.

*Resenha publicada originalmente na revista Belas Infiéis, v. 5, n. 1 (2016).


Imagens: Marcela Fehrenbach (Divulgação).
Publicado em Crítica de tradução | Marcado com , , , , , , , | 1 Comentário

Giacomo Leopardi – O infinito

O mais recente número da revista Appunti Leopardiani (Edizioni 11 – 2016/1), periódico dedicado ao estudo e difusão da obra do poeta italiano Giacomo Leopardi, editado pelo DLLE-UFSC, publicou a minha tradução do poema “L’infinito”, uma das composições mais famosas do autor e também da lírica ocidental. Para acessar o texto clique na imagem.

cabecalho_links

Publicado em Traduções | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Francisco de Quevedo – Em Roma buscas Roma, ó peregrino!

Este soneto de Quevedo, o primeiro dele que traduzi, é a filiação do poeta à nostalgia e melancolia evocadas pelas ruínas romanas, tema que se destaca na poesia ocidental a partir de um epigrama latino composto no século XVI pelo renascentista italiano Janus Vitalis e do qual os versos de Quevedo são a reelaboração. Tal poema também contou com a releitura de vários outros nomes, como Joachin Du Bellay, Edmund Spenser e Goethe. Em Poesia alheia (Imago, 1998), Nelson Ascher apresenta-nos a sua tradução de Vitalis e de mais quatro versões, incluindo a de Quevedo. O interessante é que fui introduzido a essa tradição ruinística através de um poema mais recente: o belo “Ruínas romanas”, de Claudio Willer, publicado no volume Estranhas experiências (Lamparina, 2004), mas que cruzou o meu caminho no documentário Uma outra cidade (2000), de Ugo Giorgetti.

Goethe_Zeichnungen_Egeria__774x500_

Em Roma buscas Roma, ó peregrino!

Em Roma buscas Roma, ó peregrino!
e em Roma, desejando Roma, falhas:
cadáver são as que ostentou muralhas,
e tumba de si próprio o Aventino.

Jaz, onde governava, o Palatino;
e de tempo limadas, as medalhas
mais se mostram destroços às batalhas
contra as idades que brasão latino.

Só o Tibre restou, cuja corrente,
se a cidade regou, já sepultura,
pranteia-a com funesto som dolente.

Ó Roma! em teu poder e formosura
fugiu o que era firme, e unicamente
o fugitivo permanece e dura.

Trad. Marcelo Bueno

Buscas en Roma a Roma, ¡oh peregrino!

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!,
y en Roma misma a Roma no la hallas:
cadáver son las que ostentó murallas,
y tumba de sí propio el Aventino.

Yace, donde reinaba el Palatino;
y limadas del tiempo, las medallas
más se muestran destrozo a las batallas
de las edades que blasón latino.

Sólo el Tíbre quedó, cuya corriente,
si ciudad la regó, ya, sepoltura,
la llora con funesto son doliente.

¡Oh, Roma!, en tu grandeza, en tu hermosura,
huyó lo que era firme, y solamente
lo fugitivo permanece y dura.

QUEVEDO, Francisco de. Poesía original completa. Ed. José Manuel Blecua. Barcelona: Planeta, 2004. pp. 244-245.

Notas

– vv. 4-5 – Aventino e Palatino: duas das sete colinas de Roma.

– v. 9 – Tibre: rio que atravessa Roma, sendo o terceiro mais longo da Itália, com nascente na Emília-Romanha e foz no Mediterrâneo.


Imagem: Esboço da Gruta de Egéria em Roma, Johann Wolfgang von Goethe, 1786.

Citação | Publicado em por | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Cecco Angiolieri – Soneto LXXXVI

Tomei conhecimento da figura do poeta italiano Cecco Angiolieri (c. 1260-1312) como personagem de um conto das Vidas imaginárias, de Marcel Schwob. Creio que a tradução que agora publico, que é a de seu poema mais famoso, é a primeira que aparece no Brasil. Na verdade, desconheço qualquer outra tradução dos escritos de Angiolieri por aqui. Como vocês verão, esta pequena amostra dá uma ideia da agressividade e jocosidade de sua poesia, verve que contribuiu para que o pintassem exageradamente rebelde, boêmio e maldito.

Cecco-Angiolieri

Soneto LXXXVI

Se eu fosse fogo, arderia o mundo;
se fosse vento, eu o arrasaria;
se fosse água, eu o afogaria;
se fosse Deus, o mandava ao profundo;

se fosse papa, rindo-me jucundo,
a todos os cristãos enganaria;
se fosse imperador, o que faria?
Às cabeças daria fim rotundo.

Se fosse morte, o meu pai encontrava;
se fosse vida, dele estava ausente:
do mesmo modo a minha mãe tratava.

Se fosse Cecco, como era e sou sempre,
só as mulheres bonitas tomava:
as feias deixaria a outra gente.

Trad. Marcelo Bueno

Sonetto LXXXVI

S’i’ fosse foco, arderéi ’l mondo;
s’ i’ fosse vento, lo tempesterei;
s’i’ fosse acqua, i’ l’annegherei;
s’i’ fosse Dio, mandereil’en profondo;

s’i’ fosse papa, sare’ allor giocondo,
ché tutti cristïani imbrigherei;
s’i’ fosse ’mperator, sa’ che farei?
A tutti mozzarei lo capo a tondo.

S’i fosse morte, andarei da mio padre;
s’i’ fosse vita, fuggirei da lui:
similemente farìa da mi’ madre.

S’i’ fosse Cecco, com’i’ sono e fui,
torrei le donne giovani e leggiadre:
e vecchie e laide lasserei altrui.

ANGIOLIERI, Cecco. Rime. In: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/lb000062.pdf>. pp. 57-58. Acesso em: 20/05/2015.

Versão musicada do poema por Fabrizio de Andrè.

Publicado em Traduções | Marcado com , , , , | 3 Comentários

Niccolò Machiavelli – Estrambotos

Estrambotos

I

Espero, e do esperar cresce o tormento:
choro, e este chorar nutre o coração:
rio, e este rir não passa para dentro:
ardo, e este arder se furta da visão:
temo a isto que sinto e ao que atento;
tudo me causa nova danação;
assim na espera, choro, rio e ardo,
e aflige-me o que ouço, vejo e aguardo.

II

Com o que ofende esconde toda fera:
entre a erva, o dragão habita o prado:
leva a abelha na boca mel e cera
e na pequena há um ferrão guardado:
oculta a face horrível a pantera
e o dorso mostra prazeroso e vago;
tu mostras o teu rosto ao bem afeito,
pois tens um coração cruel no peito.

Trad. Marcelo Bueno

Strambotti

I

Io spero, e lo sperar cresce ’l tormento:
io piango, e il pianger ciba il lasso core:
io rido, e el rider mio non passa drento:
io ardo, e l’arsion non par di fore:
io temo ciò che io veggo e ciò che io sento;
ogni cosa mi dà nuovo dolore;
così sperando, piango, rido e ardo,
e paura ho di ciò che io odo e guardo.

II

Nasconde quel con che nuoce ogni fera:
celasi, adunque, sotto l’erbe il drago:
porta la pecchia in bocca mèle e cera
e dentro al piccol sen nasconde l’ago:
cuopre l’orrido volto la pantera
e ’l dosso mostra dilettoso e vago;
tu mostri il volto tuo di pietà pieno,
poi celi un cor crudel dentro al tuo seno.

MACHIAVELLI, Niccolò. Poesie varie. In: <http://www.classicitaliani.it/index212.htm>. Acesso em: 05/2015.

Nota: estramboto é um antigo gênero poético italiano, constituído por uma única estrofe de seis ou oito decassílabos e com temática predominantemente amorosa.

Niccolò Machiavelli (1469-1527), filósofo, historiador, dramaturgo, poeta e diplomata italiano, é considerado o pai da ciência política moderna. Em sua obra mais célebre, Il principe (O príncipe, 1513), defende a separação entre ética e política, o que garantiu à sua figura um lugar de permanente controvérsia na posteridade. Dentre sua produção literária, destacam-se: L’asino (O asno – poema satírico inacabado, 1517), Mandragola (Mandrágora – comédia, 1518) e Belfagor arcidiavolo (Belfagor, arquidiabo – novela, 1518-1527).

*Atualização – 26/12/2016: tradução republicada em Zunái – Revista de Poesia e Debates, v. 3, n. 2 (dez 2016).


Imagem: Retrato póstumo de Machiavelli, Santi di Tito, óleo sobre tela, segunda metade do séc. XVI, Palazzo Vecchio, Florença.
Publicado em Traduções | Marcado com , , , , , | 1 Comentário